segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O CAMINHAR.

Com o passar do tempo e com o calejar da luta, algumas coisas vão ficando tão para trás, que fica até difícil de entender certos medos e anseios de quem está começando a caminhada. E esses dias identifiquei o quão casca grossa eu estou ficado! Rs...

Nessa minha caminhada muitas pessoas vem e vão. Me entristeço sempre com um novo diagnóstico que chega até mim, mas sempre agradeço a Deus pela oportunidade de alguma sorte, poder auxiliar. Afinal é para isso que o Cicatrizar existe!

E um desses momentos  me fez ver quanta coisa já passei até aqui e o tanto que já me despojei de conceitos e pré-conceitos. Me vi frente a necessidade de pela primeira, vez dar a má notícia para uma amiga. Por saber o preço da angústia  e já ser quase uma oncologista prática, quando ela me mandou a mensagem com o resultado de seu exame, eu não tive dúvidas... mas uma guerreira para o time! Mas certamente que tomei a liberdade de ligar para o meu amigo/médico e confirmar a informação.

Era sábado e marcamos de encontrar no shopping. Tem coisas que não tem como serem ditas pelo telefone e eu pensava que seria melhor ela digerir aquela bomba no final de semana do que ficar na neura até o dia que o médico pudesse vê-la.

São sensações que não podemos descrever muito bem, pois acredito que todas que viveram isso, conseguem mergulhar de cabeça no sentimento, pois além da solidariedade sabemos o que é entrar nesse turbilhão e viver emoções tão fortes, que vão desde o entorpecimento até que a fé se instale e nos prepare para a guerra.

E lá estava eu, com lágrimas nos olhos, o coração apertado, mas como o firme propósito de ajudar minha amiga a começar a caminhar nessa estrada que eu conheço tão bem... Todo o cuidado e carinho que possamos ter não ameniza a dor de quem recebe a notícia. E aí o meu primeiro espanto, o medo estampado nos olhos e nas mãos tremulas. Já havia me esquecido de como é chocante ouvir essas sete letras: é câncer!

Falo tanto disso que parece que se tornou corriqueiro, minha fé é tão sólida que não dou muito valor a essa palavra... não que ela não me assuste e não me faça gelar a espinha a cada novo exame, mas não a vejo como o fim do mundo mais. 

No entanto, o primeiro contato com essa realidade parece um avalanche, uma avalanche de sentimentos.  Naturalmente a primeira pergunta sai: Porque meu Deus? Porque isso foi acontecer comigo? 

Como sempre digo, essa doença é muito democrática, não escolhe idade, cor, religião, camada social, nada, ela simplesmente vem e te mostra sua condição de mero mortal, passível de medo, dor e morte. Mas te abre a possibilidade de ver sua força, determinação, coragem e fé!

Nessa experiência pude ver como trabalhei bem minha aceitação, quando a sequência de perguntas chegou no ponto mais temido: "Vou ter que tirar minha mama?" Como já estou à seis anos de peito novo, respondo tranquilamente que talvez sim, mas que isso vai depender do bandido e de como o médico irá combate-lo... Mas uma vez o choro doído me trouxe de volta a realidade do que é tirar a mama. Principalmente para aquelas mulheres que ainda acalentam na alma o desejo de ser mãe e amamentar seus filhotes.

Me lembro do mecanismo de compensação, tática desenvolvida para sobrevivência e logo explico para a guerreira novata, que mesmo que isso ocorra, a área de cirurgia plástica nos dias de hoje faz verdadeiros milagres! Só que, algumas como eu mesma, que nunca havia pensado em uma cirurgia plástica, por amar os seus seios, levam um tempinho maior para reequilibrar a força dentro do mecanismo. Mas ele acontece e tanto que hoje só me lembro deles quando tento deitar de bruços e sinto um pouco de desconforto. Rs...

Terminamos nosso encontro com lágrimas nos olhos, sorriso nos lábios e a certeza de que Deus cuida de cada uma de nós, inclusive nos dando a oportunidade de aprendermos a nos aceitar, aceitar os revezes da vida, a ter paciência, coragem, fé e principalmente a amar, amar a nós mesmas e amar a vida!

E desejo que cada uma que teve que entrar nesse barco, receba do nosso Criador todas as armas para lutar e possa ao final da batalha sair transformada, assim como eu acredito que tenho saído das minhas, um ser humano cada vez melhor.

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